Entre os artigos recolhidos no dia-a-dia e guardados para mais tarde processar, este domingo deu para regressar a este.

Uma entrevista  publicada no suplemento Fnac do Expresso em Outubro, com Nuno Markl, o humorista por detrás da Caderneta de Cromos, sucesso na rádio Comercial e também em formato livro.

A relação deste programa com o uso da memória tem pontos interessantes, especialmente os que remetem para o passado recente e de que modo ele pode ser utilizado e valorizado no presente.
Entre todas as coisas que podemos fazer com a nossa memória, para além de revivalismos e aprendizagens, podemos também rir e retirar inspiração.

“estavam cá dentro, mas eu tinha perdido a chave da gaveta em que elas estavam arrumadas. Quando aparece um ouvinte com a chave, é maravilhoso”

“  O universo superpovoado desta caderneta viaja entre o futuro e o passado?

Talvez mais entre o passado e o presente. A maneira como vemos a mesma coisa quando temos 10 e quando temos 40 anos fascina-me, e muito do gozo de escrever a Caderneta  está em tentar surpreender-me a mim próprio quando penso num objecto ou numa música que estavam esquecidos e sepultados num buraco fundo da minha memória e tento perceber porque é que gostava tanto deles naquela altura. Mas gosto de olhar com otimismo para o futuro. Costumo dizer que a Caderneta de Cromos não é uma rubrica saudosista, apesar de ter alguns ouvintes saudosistas. Há muita gente que ouve a rubrica e que lê o livro com um espírito “quem me dera voltar para aqueles tempos”, mas eu promovo outro tipo de olhar: os tempos estão lá atrás arrumados, foram divertidos e deixaram-nos boas memórias. Mas agora há outras coisas. Agora muitos de nós temos filhos, e não há nada mais estimulante do que olhar para a frente e para a viagem que vamos fazer com eles.

A memória (a sua e a nossa) é um ponto de partida?

É, claro. Em muitos casos, a memória dos ouvintes da rúbrica. Dá-me muito gozo quando vou ao Facebook da Caderneta e sou surpreendido por algo de que nem eu, com a minha cabeça cheia de cromos, me lembrava. Foi assim com cromos como o Carlitos, a canção do Fernando Correia Marques, ou o pungente Recado P’ra Mãe, da petiza Magda. Essas canções estavam cá dentro, mas eu tinha perdido a chave da gaveta em que elas estavam arrumadas. Quando aparece um ouvinte com a chave, é maravilhoso. “

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