Estive no passado dia 1 em Paris, por ocasião do 19º World Congress of Science and Factual Producers, para participar no painel que reúne produtores e cientistas.
Estes últimos apresentam sua área de investigação (lá fui eu falar de Lixo e Arqueologia Contemporânea e maravilhar-me com astrofísica, neurociências, engenharias, e até os testes químicos feitos aos materiais de cozinha que usamos diariamente) e  têm um workshop sobre o que procuram os produtores de documentários e o público.

Este ano os cientistas convidados foram todos mulheres, nomeadamente para se debater o porquê de o panorama dos documentários de ciência ser ocupado tão maioritariamente por homens (podemos apontar várias causas, principalmente advindas de moldes culturais que vêm de trás, mas obviamente a tendência é para essa hegemonia se ir perdendo pouco a pouco com o tempo).

Usando os transportes públicos para chegar ao lugar do congresso, dá para ler o Metro, jornal diário gratuito versão parisience (bem mais grosso que o nosso, e agrafado!). Algumas notícias chamaram à atenção:

La Tour Eiffel rêvée en dame de vert: Parece que é normal surgirem ideias mirabolantes em torno do grande símbolo de Paris que é a Torre Eiffel. Desta vez era cobri-la de plantas. 72 milhões de euros para o empreendimento, que seria todo pago por privados. A Câmara municipal apressou-se a desmentir que tal empreendimento pudesse ser feito.
Embora a nível estético e de inovação a ideia não me desgoste de todo, fiquei a perguntar-me se até a Torre Eiffel é vítima desse preconceito superficial que acha que tudo o que seja feito de ferro deve ser inimigo do ambiente. Um preconceito que ameaça muito a Arqueologia Industrial… Era de esperar que a Torre Eiffel, que já transporta consigo uma simbologia que transcende muito o seu material de construção, escapasse a isso. Ou talvez seja preconceito meu e eles apenas quisessem pôr plantas no monumento mais emblemático de Paris e não tenha nada a ver com sobrepôr a um símbolo de inovação industrial uma imagem ecológica (sabemos como as duas só recentemente têm aprendido a viver juntas)…

Outra notícia mais desagradável, especialmente porque chega já concretizada, é a de que On n’embrassera plus  Oscar Wilde, pois o seu túmulo foi totalmente limpo e vedado com uma placa de acrílico… Eu acho que o Oscar Wilde gostaria de ter o seu túmulo continuamente beijado e amado, em vez de apenas observado. Mas os conservadores acham que assim é que deve ser, porque estava a danificar demasiado a estátua, tanto baton e vandalismo.
Talvez devessemos aceitar que, tal como é impossível fossilizar uma paisagem, também os objectos e sítios que continuam vivos e a ser usados ao longo do tempo vão continuar a mudar. Aceitar a mudança e que nada fica para sempre, mas que constantemente se criam coisas novas que ocupam os espaços do que se perde.

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